segunda-feira, 11 de maio de 2009

Confissões

Se existe algo de que me envergonho é a covardia. Não direi que sou a mais brava das bravas... Assumo aqui meus momentos covardes.
Quando me deparo com a covardia a pulsar, envenenar-me, me escondo.
Me escondo na escuridão da fortaleza que venho construindo por séculos...
Não poderia permitir aos outros que vissem tal imagem. A pele seca, olhos fundos, ausência da voz. A covardia é o pior dos vícios.
O completo covarde sorri cinicamente, sem saber do que verdadeiramente ri. O cinismo é resultado imediato do não-saber. Mas não-saber não é covardia; covardia é ignorar a verdade, a verdade de que nada se sabe.
De olhos bem abertos fico assustada com a minha própria fraqueza e assim, para ignorar, procuro a escuridão. Se assim permaneço me repugno cada vez mais. O castelo é duplo em seu destino: Glórias e Tragédias. Cabe ao Rei escrever a estória.
Se digo que me envergonho particularmente desse aspecto da minha humanidade é por entender que o covarde tenta fugir de sua saga. E para mim é impensável uma vida pequena... Assumo meus momentos covardes, mas estou aqui nesse não-saber exatamente para aprender, apreender. E deixo as espadas talharem pedaços e pedaços de meu couro, e com o viço da coragem criam-se desenhos mais belos de se apreciar.
Dentro de mim não cabe covardia e coragem. Não há espaço para que coexistam; assumir não significa admitir. Momentos de fraqueza tornam o guerreiro mais forte... Envergonhar-me é o indicador, o aviso de que este caminho não é o meu. Meu caminho é obscuramente épico.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Olhos de sépia

Existem pessoas que são incomuns. Pessoas com um incômodo constante dentro de si. Pessoas que para elas não basta saber que as coisas existem, isso é pouco.
Pessoas incomuns. Elas questionam. Espertas, sabem que encontrar a resposta é uma incumbência de ordem moral, imposta de si para si mesmo, e que provavelmente não trará uma resposta fechada, una. Para elas não basta estar, é preciso exercitar o prazer que é sentido na curiosidade.
Para os incomuns, uma palavra é muito mais que um sentido apenas. É uma palavra um universo infinito de sentido e sensações. A palavra tem cheiro, sabor, textura, melodia, cor... E algo mais que transcende e que não se apreende. A palavra possui um buraco; paradoxalmente o incomum busca preenchê-lo com a própria palavra.
A Saudade é palavra ordinária... Conta um pouco do mundo desses estranhos. Estranhos seres nostálgicos que enxergam o mundo, a vida, as relações de modo diverso. O nostálgico possui olhos amarelados, não se sabe nunca se felizes ou tristes. Olhos de sépia...